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Indecisão sobre corte na produção derruba petróleo

07/12/2018

Fonte: Valor Econômico

Os preços do petróleo chegaram a cair 5% ontem, depois de a Arábia Saudita ter informado que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e seus aliados estudam uma redução nas cotas de produção inferior à que muitos negociantes previam. O anúncio levantou receios de que o grupo enfrenta dificuldades para reagir ao retorno da situação de excesso de oferta.

O ministro de Energia do país, Khalid al-Falih, disse a repórteres, antes do encontro com seus pares em Viena, que a Opep e seus aliados, incluindo a Rússia, ainda negociam para chegar a um acordo até amanhã para deter a desvalorização de 30% nos preços do petróleo acumulada desde o início de outubro.

Falih disse, entretanto, que a preferência da Arábia Saudita, que na prática é a líder da Opep e é o país que mais sofre pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para manter os preços baixos, é por “um corte suficiente, mas não excessivamente grande”. Ele acrescentou que uma redução de 1 milhão de barris diários da Opep e aliados “seria adequada”.

Analistas do setor petrolífero dizem que cortes de no mínimo 1,3 milhão a 1,5 milhão de barris diários seriam necessários para equilibrar o mercado e impulsionar os preços em 2019. O petróleo do tipo Brent chegou a cair para US$ 58 por barril durante o dia. No fim do dia, o contrato do Brent para entrega em fevereiro fechou com queda de 3,65%, cotado a US$ 59,31.

“Como o mercado esperava uma grande queda na produção, houve um pouco de decepção”, disse Giovanni Serio, chefe de análise mundial na Vitol, maior comercializadora independente de petróleo do mundo, que participa da reunião em Viena.

A Arábia Saudita pediu a contribuição de todos os países, incluindo a Rússia e os que não participaram de acordos anteriores como Líbia e Nigéria, argumentando que qualquer acerto precisa ser “justo e equitativo”.

Quando perguntada se há possibilidade de que não se chegue a um acordo, Falih disse que todas as opções estão na mesa, mas acrescentou que a Rússia – maior exportadora fora do grupo e vista como crucial para um acordo – “fez a promessa” de cortar.

Ao fim do encontro ontem, um dos participantes disse ao “Financial Times” que os termos gerais de acordo haviam sido acertado entre os membros da Opep para reduzir a produção, mas que as discussões sobre o exato tamanho da redução ainda não terminaram.

Ainda há incerteza sobre até que ponto a Rússia está preparada para cortar. O ministro da Energia do país, Alexander Novak, alertou para o inverno rigoroso, que reduz a capacidade do país para cortar a produção na Sibéria até o fim de 2019. “Para nós é muito mais difícil cortar”, disse à agência de notícias estatal russa Interfax, na quinta.

O petróleo Brent caiu mais de 30% desde outubro, depois de os EUA terem eximido de suas sanções grandes compradores de petróleo iraniano e de alguns produtores, como as empresas de petróleo de xisto americanos, terem elevado sua produção.

Os cortes de produção propostos podem ser acertados apesar das pressões de Donald Trump, que defende a continuidade dos altos níveis de produção e descreve as baixas cotações como um “corte de impostos” para os consumidores.

No encontro dos ministros de energia em junho passado, a Arábia Saudita comprometeu-se a aliviar os limites à produção local de petróleo que estavam em vigor desde janeiro de 2017, para compensar a queda nas exportações iranianas após a entrada em vigor das sanções americanas, com o que sua produção chegou a patamares recorde, superiores a 11 milhões de barris por dia.

Falih se reuniu com Brian Hook, representante do Departamento de Estado dos EUA, em Viena, na quarta-feira, o que irritou o Irã, rival regional da Arábia Saudita. Hook apresentou aos sauditas as políticas de sanções para os próximos meses.

“A Opep é uma organização independente e não faz parte do Departamento de Energia dos EUA para receber ordens de Washington”, disse Bijan Zanganeh, ministro do Petróleo do Irã, à agência estatal de notícias Shana.

A tomada de decisões da Arábia Saudita tem ficado mais complicada diante das pressões dos EUA, seu principal aliado ocidental. A pressão de Trump por preços mais baixos chega depois de ele ter apoiado Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, apesar das dúvidas sobre o envolvimento do príncipe-herdeiro no assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, do “The Washington Post”.

Também pesa nos preços o temor de que uma desaceleração econômica mundial possa afetar a demanda por petróleo, o que preocupa grandes produtores que dependem das receitas das exportações para abastecer os cofres governamentais.

Bob McNally, do Rapidan Energy Group, afirmou que as negociações continuam e a Opep, sob a liderança da Arábia Saudita, poderia estar disposta a reduzir sua produção ainda mais se a Rússia mostrasse vontade real de contribuir, possivelmente buscando um corte coletivo de até 1,3 milhão de barris diários. A Rússia vai liderar os não membros da Opep, entre os quais o Cazaquistão, em um segundo encontro com ministros da Opep marcada para hoje.

McNally prevê que Trump vai manter a pressão sobre a Opep, o que poderá comemorar como uma vitória econômica para sua administração. “Trump não vai deixar passar”, disse. “Desde as eleições” de meio de mandato nos EUA, Trump deixou de dizer que queria evitar altas nos preços e passou a “tentar conseguir um ‘corte de impostos'”.

O encontro ministerial de dois dias atraiu ainda mais a atenção de fundos hedge e grandes comercializadoras do que o normal, dada a incerteza de seu desfecho e seu potencial para alterar significativamente o rumo das cotações nos próximos meses.

O encontro foi visto de forma generalizada como o mais importante desde o fim de 2016, quando a Arábia Saudita, a Rússia e outros produtores mundiais concordaram em agir coletivamente para acabar com os vários anos de baixos preços.

“Neste momento, o mercado precisa de certezas, não de nuances”, disse Mike Bradley, estrategista da área de energia na Tudor, Pickering, Holt & Co. “Eles vão ter que surgir com algo um pouco mais explícito.” (Tradução de Sabino Ahumada)