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Juros baixos e combustível caro aquecem vendas de motos

11/01/2019

Fonte: Estado de Minas

Um dos símbolos da expansão do aumento do consumo da classe C durante o início dos anos 2000, o mercado brasileiro de motocicletas viveu tempos difíceis na última década. As vendas caíram pela metade, afetadas pelo maior rigor dos bancos na liberação de crédito durante a crise e pelas bem conhecidas turbulências na economia.

Esse cenário, porém, parece ser agora apenas uma imagem no retrovisor. De acordo com os números mais recentes da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), as 968.860 motos produzidas entre janeiro e novembro do ano passado representam 19% de aumento sobre a mesma referência medida na temporada anterior.

“Não chegávamos a esse patamar há anos”, diz o presidente da Abraciclo, Marcos Fermanian. Segundo ele, o ritmo produtivo apontava para uma alta de 10%, mas a recuperação da economia trouxe resultados melhores do que inicialmente se imaginava.

As cifras mostram que o mercado de duas rodas reencontrou a estrada do crescimento. Dos R$ 67,8 bilhões no faturamento do Polo Industrial de Manaus (PIM) – onde estão concentrados 98% da produção de motocicletas e bicicletas, com 14 empresas – mais de R$ 9 bilhões vieram das motos. Só em novembro foram entregues exatas 90.108 motocicletas, 8,4% acima do que se viu no mesmo mês de 2017, com 83.106 unidades.

Embora a grande estrela do setor tenham sido as exportações, 2018 foi um ano de retomada do mercado interno. Segundo os números divulgados pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), o setor fechou o ano passado com alta de 10,47% em relação a 2017, totalizando 940.362 unidades emplacadas.

Foi a primeira vez desde a crise de 2008 que o setor obteve um resultado positivo. “A queda da inadimplência trouxe, como consequência, uma maior oferta de crédito e o aumento de aprovação de fichas cadastrais para financiamentos de motocicletas, principalmente de baixa cilindrada, que representam a maior fatia do mercado”, afirma o vice-presidente da Fenabrave, Carlos Porto. “Outro fator que ajudou a puxar as vendas foi a participação do segmento de consórcios, que representa mais de 30% sobre os créditos concedidos”, completa

Para a Fenabrave, a previsão é de nova alta no setor de motos para este ano. A entidade aposta em expansão de 7,3% em 2019, enquanto no geral, incluindo automóveis, a Fenabrave acredita no avanço de 10,1% dos emplacamentos na comparação com 2018. “Tudo dependerá dos rumos a serem dados pelo novo governo, como a aprovação das reformas necessárias”, afirma Alarico Assumpção Júnior, presidente da Fenabrave. “A sinalização nesse começo do governo já se mostra positiva, com uma agenda de intenso trabalho proposta para os primeiros 100 dias.”

ALTA ‘ABSURDA’

Talvez nenhum fator tenha sido foi tão decisivo para alta da demanda por motos quanto o reajuste da gasolina. De janeiro a setembro, a disparada de 46% dos combustíveis nas refinarias levou muita gente a deixar o carro na garagem e a buscar alternativas mais econômicas de locomoção. “Houve uma corrida por motos depois da greve dos caminhoneiros e da mudança na política de reajustes da Petrobras, que encareceu a gasolina de forma absurda”, afirma Renato Fontes, economista da FGV. “Em algumas partes do país, onde o transporte público não atende à demanda, houve até a volta do uso de transporte por animais, como cavalos e jegues.”

Ao analisar o que está ocorrendo, o presidente da Abraciclo atribui os bons ventos principalmente à ampliação do crédito, além da segurança dos clientes na hora de adquirir veículos, especialmente motos. Fermanian conta que 70% do movimento estão nos consórcios ou nas vendas financiadas. “É preciso de confiança para se comprometer a assumir parcelas mensais”, observa o executivo. “A confiabilidade no futuro é um aspecto preponderante.”

Outro detalhe muito comemorado é que as empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus ampliaram a criação de postos de trabalho. Desde 2011, havia redução de vagas nas linhas de produção de motos. Segundo a Suframa, o segmento preencheu quase 12,5 mil empregos diretos. “De lá para cá, esse número só aumenta”, constata Fermanian, ao se referir às notícias transmitidas pelos fabricantes. “É um ótimo sinal.”

Às vésperas de fechar 2018, a Abraciclo mantinha dados que, comparativamente a 2017, antecipavam um recuo de 14,4% nas exportações, de 81.789 para 70 mil unidades. Neste ano, não se pode esperar nenhuma reação na rota do exterior, segundo a entidade. A queda pode cravar nos 30%, ou 49 mil motos. A crise da Argentina, que levava 70% deste produto, respingou diretamente no Brasil.