A notícia de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, adiou ataques contra usinas e infraestrutura de energia no Irã por cinco dias trouxe alívio aos mercados nesta segunda-feira e levou a uma queda de mais de 10% nos preços do petróleo. Ele citou “conversas produtivas” com as autoridades do país islâmico, que posteriormente negaram a existência de negociações.
Ainda assim, a sinalização por parte de Washington de que há disposição para um acordo com o Teerã foi bem recebida pelos participantes do mercado e provocou uma distensão nos ativos globais, com alta firme das bolsas de Nova York, enquanto o dólar e os rendimentos dos Treasuries caíram, em uma reversão da dinâmica dominante nas últimas semanas.
No fechamento, o petróleo tipo Brent, a referência mundial, com vencimento em maio teve queda de 10,91%, negociado a US$ 99,94 por barril, na Intercontinental Exchange (ICE). O petróleo WTI, a referência americana, com entrega para o mesmo mês caiu 10,28%, a US$ 88,13 por barril, na New York Mercantile Exchange (Nymex).
Em Nova York, o índice Dow Jones subiu 1,38%, aos 46.208,47 pontos; o S&P 500 avançou 1,15%, aos 6.581,00 pontos; e o Nasdaq teve alta de 1,38%, aos 21.946,760 pontos.
Após um aumento nas tensões no Oriente Médio no fim de semana, Trump mudou o tom na manhã de ontem e disse que iria suspender toda a ofensiva contra a infraestrutura energética iraniana por um período de cinco dias, ao mencionar “conversas muito boas e produtivas” com o país persa.
Antes, o republicano havia dado um ultimato ao Irã, exigindo a reabertura do Estreito de Ormuz em até dois dias, sob ameaça de bombardear usinas de energia no país islâmico. Em resposta, Teerã disse que atacaria os sistemas de energia e água de países vizinhos no Golfo Pérsico caso isso acontecesse e que só iria liberar a passagem quando suas usinas atacadas fossem reconstruídas.
“Com base no teor e no tom dessas conversas aprofundadas, detalhadas e construtivas, que continuarão ao longo da semana, instruí o Departamento de Guerra a adiar todos e quaisquer ataques militares contra usinas de energia e infraestrutura energética iranianas por um período de cinco dias, sujeito ao sucesso das reuniões e discussões em andamento”, disse Trump nas redes sociais. As declarações fizeram com que o petróleo tivesse forte queda, com o Brent terminando o dia abaixo do nível de US$ 100 por barril, e levaram a um alívio nos mercados globais, que interpretaram a notícia como um sinal de desescalada na guerra.
Trump também disse que um acordo poderia surgir em questão de dias e, “se isso funcionar”, o Estreito de Ormuz será reaberto em breve. O presidente dos EUA afirmou que o Irã foi o primeiro a fazer contato e que as autoridades americanas estão falando com uma “figura de alto nível” do país do Oriente Médio. No entanto, pouco depois, autoridades do Irã negaram a existência de conversas, o que afastou os preços do petróleo das mínimas, embora os contratos ainda tenham terminado o dia em forte queda.
Trump citou “conversas produtivas” com as autoridades do Irã, que depois negaram as negociações
“O potencial de escalada e desescalada no conflito entre Estados Unidos contra Israel e Irã muda quase diariamente”, comentam os estrategistas da UBS Global Wealth Management em relatório enviado a clientes. Eles observam que, apesar do choque nos preços do petróleo e da reprecificação da política monetária em diversas economias, os ativos de risco têm se mostrado resilientes, com o S&P 500 caindo apenas 5,4% desde o início do conflito.
A gestora suíça acredita que uma recuperação rápida do mercado é provável diante de qualquer sinal de fim da guerra e normalização dos fluxos de exportação de petróleo – uma visão reforçada pelo comportamento dos preços no pregão de ontem.
Por outro lado, Jeffrey Hawkins, sócio e responsável por crédito e “special situations” da Bain Capital, acredita que os investidores podem estar subestimando os riscos da guerra no Oriente Médio e aponta que os efeitos podem durar mais do que os participantes do mercado antecipam no momento. “Acho mais provável vermos uma correção do que uma recuperação rápida. Há mais risco de queda do que de alta, na minha visão”, enfatiza. “Mas me parece que o mercado de ações, neste momento, está mais posicionado para não perder um eventual rali.”
Hawkins afirma que, mesmo se ambos os lados da guerra chegassem a um acordo, o que parece longe, ainda demoraria para que o Estreito de Ormuz voltasse a funcionar de forma semelhante ao período anterior ao conflito. “Ainda seria necessário retirar as minas que foram colocadas no Estreito, reativar o mercado de seguros, reposicionar os navios, garantir que as tripulações aceitem operar… Tudo isso leva tempo. E quanto tempo, exatamente, é difícil saber”, observa. “De forma geral, me parece que o mercado está subestimando esses riscos.”
No fim da sessão, os rendimentos dos Treasuries com vencimento em dois anos caíam de 3,913% no fechamento anterior para 3,865%, enquanto a taxa da T-note de dez anos passava de 4,387% para 4,351%. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de outras seis moedas fortes, teve dinâmica semelhante e, no fim da tarde, sustentava queda de 0,53%, aos 99,12 pontos.
Para Ian Lyngen e Vail Hartman, estrategistas do BMO Capital Markets, as manchetes conflitantes do dia reforçaram a incerteza associada ao conflito, embora esteja claro que uma queda nos preços de energia é positiva para as ações americanas e para os Treasuries. “A extensão do prazo mantém aberta a janela para um acordo até depois do fechamento de sexta-feira. Evidentemente, se aprendemos algo com o segundo mandato de Trump na Casa Branca, é que prazos são flexíveis e objetivos são frequentemente negociáveis”, comentam os profissionais do banco.
