O preço global do diesel sofreu um forte impacto desde o início da guerra no Irã, no final de fevereiro – principalmente em decorrência do bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% da produção mundial de petróleo. Tornou-se inevitável que o custo do produto para os consumidores brasileiros aumentasse, mas uma intensa mobilização das distribuidoras de combustíveis está evitando um problema que certamente seria muito mais grave: o desabastecimento.
Considerando que a alta dos preços é causada também pela redução da oferta no mercado internacional, o setor desenhou uma complexa estratégia para afastar a ameaça de um apagão sistêmico em setores vitais da economia brasileira, como transporte, agronegócio e diversas cadeias produtivas. Essa verdadeira corrida contra o tempo envolve uma série de ações que nem sequer chegam a se tornar conhecidas do grande público, mas são essenciais para preservar o abastecimento e assegurar a normalidade das atividades no País, que importa 30% do diesel que consome.
São estratégias que exigem mobilização de capital intensivo – investimentos extras e não previstos que se fizeram necessários diante do cenário. Isso abrange desde a ampliação emergencial da infraestrutura logística, envolvendo o acionamento de mais navios, a expansão da tancagem (termo técnico para armazenamento) e a contratação de seguros, até a absorção de impactos financeiros, como o pagamento de prêmios altíssimos no mercado internacional e a gestão da diferença de custo em relação ao produto nacional.
Trabalho contínuo
A vigilância e as estratégias precisarão ser mantidas mesmo com o eventual cessar-fogo e a reabertura plena do Estreito de Ormuz, pois o tempo médio do ciclo de negociação e transporte desde aquela região até o Brasil é de aproximadamente 45 dias. Projeta-se que a cadeia global de energia enfrentará uma “ressaca logística” persistente, marcada por gargalos, acúmulo de cargas, entre outros pontos que poderão exigir meses de estruturação até que a estabilidade global seja restabelecida.
O cenário já estava tumultuado pelo conflito no Leste Europeu entre Rússia e Ucrânia, que alterou profundamente as rotas globais de escoamento de derivados do petróleo, especialmente devido aos embargos e sanções aplicados à Rússia. Essa reconfiguração obrigou nações ao redor do globo, incluindo o Brasil, a buscar fornecedores alternativos com novas matrizes de frete, o que estrangulou a oferta internacional e, somado aos conflitos no Oriente Médio, tem sustentado a alta estrutural no preço de paridade de importação.
Disparada do preço
Desde o início do choque global ocasionado pelo conflito no Oriente Médio, o preço do barril de petróleo tipo Brent disparou para a faixa dos US$ 120, acarretando uma elevação de cerca de 65% no valor do diesel no mercado internacional. Além disso, o custo do combustível importado tem apresentado alta volatilidade, com relevantes variações diárias para cima ou para baixo, o que também contribui para dificultar o planejamento. O volume importado, adquirido a preços inflacionados no mercado internacional para cobrir a defasagem na cota nacional, encarece o “blend” final (a mistura de custo entre produto nacional e importado) exigido para garantir a integralidade do abastecimento no País.
Por tudo isso, quem credita o aumento do preço do diesel no Brasil à mera especulação certamente não está bem informado ou age de má-fé ao ignorar todas as circunstâncias descritas. As grandes distribuidoras estão absorvendo a complexidade da crise estrutural, mas ainda assim o setor é muitas vezes alvejado, politizado e enquadrado equivocadamente sob a narrativa de “vilãs da inflação”, com “lucros abusivos”.
Outro ponto relevante que precisa ser conhecido pelo público é que o impacto da distribuição no preço final do diesel fica em torno de 5%, podendo variar até 10%, dependendo da região e da dinâmica logística – de qualquer forma, permanece sempre como uma fração minoritária.
