A eletrificação do transporte deixou de ser uma tendência futura para se tornar uma realidade econômica e industrial em rápida expansão, mostra o relatório anual Global EV Outlook 2026, da Agência Internacional de Energia (IEA), publicação que identifica e avalia os desenvolvimentos recentes na mobilidade elétrica em todo o mundo. Segundo o documento, um em cada quatro veículos vendidos no mundo em 2026 será elétrico, consolidando um mercado global que já ocupa posição central nas estratégias industriais das principais economias.
A IEA prevê que as vendas globais de veículos elétricos alcançarão cerca de 23 milhões de unidades neste ano – quase 30% das vendas mundiais de automóveis. Os dados mostram que a expansão da mobilidade elétrica ocorre em diferentes velocidades ao redor do mundo, mas com crescimento consistente na maioria dos mercados.
Na Europa, a adoção de veículos elétricos acelerou significativamente em 2025, impulsionada principalmente pelo fortalecimento das metas de redução de emissões da União Europeia, o que levou os elétricos a representar 28% das vendas de automóveis.
Na China, embora o ritmo de crescimento tenha sido ligeiramente menor do que nos anos anteriores devido à interrupção temporária de programas de incentivo, os veículos elétricos continuaram dominando o mercado, respondendo por quase 55% das vendas. Vale adicionar que em 2025, as exportações chinesas de carros elétricos ultrapassaram 2,5 milhões de unidades, mais que o dobro do registrado anteriormente, refletindo uma capacidade produtiva que já supera a demanda doméstica. Após se tornar o maior exportador mundial de automóveis em 2024, ultrapassando a União Europeia, a China ampliou ainda mais sua presença internacional: em 2025, os veículos elétricos representaram mais de 35% de todas as exportações automotivas do país, ante cerca de 20% no ano anterior.
Paralelamente, a China manteve posição dominante nas cadeias produtivas associadas à mobilidade elétrica, respondendo por mais de 80% da produção global de células de baterias e por uma participação ainda maior na fabricação dos materiais essenciais utilizados nessas tecnologias.
Mesmo nos Estados Unidos, onde Donald Trump promove uma cruzada anti-renováveis e estimula os combustíveis fósseis, a participação dos VEs no mercado se manteve próxima dos 10%.
Além destes, o relatório da IEA também destaca o avanço expressivo dos mercados emergentes. No Sudeste Asiático, as vendas de veículos elétricos mais do que dobraram em um único ano, alcançando quase 20% do mercado regional, com destaque para Vietnã, Indonésia e Tailândia.
Na América Latina, as vendas cresceram 75%, impulsionado principalmente por Brasil e México.
Esses movimentos fazem parte de uma tendência global mais ampla. Afinal, mais de uma centena de países registraram aumento nas vendas de veículos elétricos em 2025 e, em cerca de um terço deles, esses veículos já representam pelo menos 10% das vendas de automóveis novos.
México lança fabricante nacional de VEs
O caso mexicano merece atenção especial, porque ilustra como a transição para a mobilidade elétrica vem sendo tratada também como estratégia de política industrial. O país registrou crescimento acelerado nas vendas de veículos elétricos e híbridos em 2025, impulsionado pela entrada de novas montadoras, pela expansão da oferta de modelos e pelo fortalecimento da produção local.
Além do aumento do consumo, o México vem buscando ampliar sua participação nas etapas da cadeia produtiva. A presença crescente da indústria chinesa no país é um exemplo desse movimento. A BYD já responde por aproximadamente 70% das vendas de veículos elétricos no mercado mexicano, consolidando o país como um dos principais polos da expansão da empresa na América Latina.
Ao mesmo tempo, o governo mexicano passou a estimular iniciativas voltadas à construção de capacidades industriais nacionais. Um dos exemplos mais simbólicos é o lançamento da Olinia, em março de 2026, a primeira fabricante nacional de veículos elétricos do país, apresentado como parte de uma estratégia para desenvolver tecnologia própria e fortalecer a indústria doméstica em setores ligados à transição energética.
Embora existam desafios relacionados a custos, financiamento e competitividade, o caso mexicano evidencia uma tentativa de utilizar a mobilidade elétrica como instrumento de desenvolvimento industrial e inserção estratégica nas novas cadeias globais da economia verde.
O Brasil com a faca e o queijo elétricos nas mãos
O Brasil reúne condições particularmente favoráveis para assumir um papel de destaque nesse cenário. O país possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, abundância de recursos minerais estratégicos para a produção de baterias, capacidade industrial instalada e consolidada, experiência histórica na indústria automotiva e crescente atração de investimentos internacionais voltados à mobilidade elétrica. Além disso, o avanço das vendas domésticas tem sido acompanhado pela chegada de novos investimentos industriais, incluindo a expansão de montadoras como BYD, GWM e GAC, bem como investimentos na fabricação nacional de baterias.
Apesar disso, o principal desafio para o Brasil não está apenas em aumentar sua participação no mercado de veículos elétricos, mas em definir qual posição pretende ocupar nesta nova economia. Historicamente, o país participou de diversos ciclos econômicos globais, principalmente como fornecedor de matérias-primas e commodities. A transição energética oferece a oportunidade de seguir um caminho diferente, baseado na agregação de valor, no fortalecimento da indústria nacional e na produção de bens com maior conteúdo tecnológico.
O relatório da IEA mostra que a disputa internacional não se concentra apenas na venda de automóveis, mas também no controle das cadeias produtivas que sustentam a mobilidade elétrica. Baterias, processamento de minerais críticos, componentes eletrônicos, softwares de gestão energética e reciclagem tornaram-se setores estratégicos para a competitividade econômica e industrial das próximas décadas.
Aliás, a agência de energia informa que a redução dos custos das baterias, o avanço tecnológico e os ganhos de escala têm tornado os veículos elétricos cada vez mais acessíveis. E ainda destaca que os preços das baterias continuam em queda, impulsionados por inovações produtivas e pelo aumento da capacidade industrial global, especialmente na Ásia.
Esse movimento tem implicações que vão muito além do setor automotivo. A disputa global pela liderança em veículos elétricos está impulsionando investimentos em cadeias produtivas estratégicas. Em outras palavras, a transição para a mobilidade elétrica está se consolidando como um dos principais motores da nova economia verde global.
O crescimento acelerado do mercado global de VEs sinaliza para onde estarão direcionados parte dos investimentos, dos empregos verdes e das oportunidades industriais do século XXI. Para o Brasil, o desafio é garantir uma posição estratégica nas etapas de maior valor agregado das cadeias produtivas da transição energética.
