A perspectiva de término da guerra entre Estados Unidos e Irã continuou a provocar um forte ajuste nos preços do petróleo no pregão desta terça-feira. O otimismo do mercado com a assinatura de um acordo preliminar entre os dois países levou a um tombo de 5% da commodity energética, cujos contratos de referência global voltaram a patamares abaixo de US$ 80 por barril pela primeira vez desde o início de março, quando a guerra no Oriente Médio ainda estava nas suas primeiras semanas.
Ao término das negociações à vista, o petróleo Brent com entrega prevista para agosto recuou 5,06%, a US$ 78,96 por barril. Já o contrato do WTI (referência americana) com vencimento em julho anotou queda de 5,82%, a US$ 76,05.
Desde que a possibilidade de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã ressurgiu na semana passada, o preço do barril do Brent já caiu cerca de 15%. Ontem, essa dinâmica foi ampliada pela notícia de que o Irã poderá voltar a vender petróleo assim que o memorando de entendimento com os Estados Unidos for assinado, o que está previsto para acontecer na sexta-feira.
Além disso, parte da reprecificação no mercado de energia acontece devido à antecipação da reabertura do Estreito de Ormuz, canal responsável por cerca de 20% de todo o escoamento global de petróleo e que concentra o transporte de barris vindos do Irã.
Com a possível retomada das operações em Ormuz, algumas instituições financeiras revisaram as projeções de normalização do tráfego pela passagem e, consequentemente, dos preços do petróleo para este ano e para 2027. O Goldman Sachs, por exemplo, antecipou a previsão de normalização do tráfego no Estreito e passou a projetar que o valor médio do barril do Brent ficará em US$ 80 no quatro trimestre deste ano, em vez de US$ 90. Já o WTI atingirá US$ 75, ante a expectativa anterior de US$ 85.
“Embora os detalhes completos do acordo não estejam claros, agora assumimos que as exportações do Golfo Pérsico normalizem para os níveis pré-guerra até o final de julho, em vez do final de agosto”, projeta a equipe de pesquisa do Goldman Sachs, liderada pelo codiretor global de commodities, Daan Struyven.
O Citi também revisou as projeções e abandonou o cenário-base pessimista para os preços do petróleo, refletindo a perspectiva de normalização do tráfego pelo Estreito de Ormuz até o final de julho. O banco espera que o barril do petróleo Brent atinja o valor de US$ 70 no quarto trimestre, em vez de US$ 90, e o WTI chegue a US$ 66 no mesmo período, ante a expectativa anterior de US$ 84.
O novo cenário-base do Citi pressupõe que as negociações após a assinatura do memorando levem a fluxos sustentados de estoques de petróleo a taxas normalizadas, voltando o foco para os fundamentos fracos da commodity, como “um excedente (no papel) de aproximadamente 4 milhões de barris por dia até 2027, abrindo espaço para o aumento dos estoques globais, provavelmente a preços abaixo de US$ 70 por barril”, destaca.
Ao contrário do que ocorreu em pregões recentes, as demais classes de ativos globais não acompanharam o alívio nos preços do petróleo de forma tão intensa. Em Nova York, as bolsas fecharam sem direção única, ao passo em que as taxas dos Treasuries, os títulos da dívida pública dos Estados Unidos, anotaram queda moderada.
O índice S&P 500, referência da bolsa de Nova York, cedeu 0,57%, a 7.511,35 pontos; o Nasdaq tombou 1,15%, a 26.376,34 pontos; e o Dow Jones teve alta de 0,64%, a 51.999,67 pontos, marcando novo recorde histórico.
Na renda fixa, a taxa do Treasury de dez anos fechou em queda de 4,481% para 4,445%.
No Brasil, os ativos ignoraram a aparente melhora do cenário externo e tiveram um dia negativo na véspera das decisões de juros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central e do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).
No mercado de juros, por exemplo, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2028 subiu de 14,355% para 13,42%. Já a taxa do contrato para janeiro de 2029 avançou de 14,33% a 14,405%; e a do DI de janeiro de 2031 teve alta de 14,25% para 14,285%.
Além da cautela usual que precede decisões de política monetária, os investidores se mostraram mais avessos ao risco por conta de pesquisas eleitorais recentes que têm indicado uma chance maior de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – algo lido como negativo pelos agentes financeiros, que esperam mudança da política econômica que conduza a uma melhora do quadro fiscal a partir de 2027.
