Desde o último sábado (1º de agosto), a mistura do etanol na gasolina comum vendida no Brasil subiu de 30% para 32%, por força da Resolução CNPE nº 9/2026. A chegada da chamada gasolina E32 levanta dúvidas sobre consumo e rendimento, reacendendo a velha pergunta: a famosa “conta dos 70%” para decidir entre etanol ou gasolina foi por água abaixo?
Segundo os especialistas ouvidos pelo AUTOTEMPO, a nova mudança na gasolina comum vendida no Brasil, não elimina o famoso cálculo. Como o aumento de etanol na gasolina foi de apenas 2% (passando da E30 para a E32), a redução de autonomia com a nova gasolina comum gira em torno de 1% a 1,5%. Em Belo Horizonte, por exemplo, os preços médios atuais, apurados pelo site Mercado Mineiro, continuam favorecendo amplamente o etanol.
Gasolina ou etanol? Como calcular com os preços
A regra original da “conta dos 70%” foi criada quando a gasolina tinha 25% de etanol (a gasolina E25, que vigorou no país até 2015). Com as mudanças seguintes para E27 e E30, esse limite subiu gradualmente para a faixa dos 72% a 74%. Agora, com a gasolina E32, o ponto teórico de virada em motores flex modernos fica entre 73% e 75%.
Mas, em vez de se apegar a décimos percentuais, o que vale é a conta básica. Para saber se o etanol compensa, basta dividir o preço do litro do álcool pelo da gasolina na bomba. Segundo levantamento mais recente do site Mercado Mineiro, feito no fim de junho deste ano, o litro do etanol tem preço médio de R$ 4,01 e o da gasolina comum foi, em média, R$ 6,11, em Belo Horizonte e região metropolitana
Fazendo a divisão (R$ 4,01 ÷ R$ 6,11), o resultado é 0,65, ou 65,6%. Como o índice está muito abaixo do limite de 70% e ainda mais distante dos novos 73% a 75%, o etanol segue consideravelmente mais barato por quilômetro rodado no cenário atual de BH. Só valeria a pena usar gasolina comum se o etanol estivesse custando acima de R$ 4,46 (para a paridade de 73%) ou R$ 4,58 (na paridade de 75%).
Encher o tanque ou colocar pouco altera o rendimento?
Um dos mitos comuns nas conversas de posto é que abastecer apenas “cinquentão” piora o rendimento porque o combustível evapora mais ou rende menos do que com o tanque cheio. Mas isso é falso. A quantidade de combustível despejada no tanque não altera a eficiência volumétrica nem a matemática do custo por quilômetro rodado.
Seja completando os 50 litros ou colocando apenas R$ 50, o rendimento energético do combustível injetado no motor por litro será rigorosamente o mesmo. A única diferença, além do peso extra do tanque cheio, é o tempo: quem abastece pouco precisa ir ao posto com mais frequência, e esses pequenos desvios de rota ao longo do mês consomem combustível extra (seja etanol ou gasolina E32).
Gasolina E32 pode trazer problemas para carros não-flex?
Enquanto os carros flex tiram a E32 de letra, o cenário é diferente para automóveis movidos exclusivamente a gasolina. Modelos antigos (carburados ou dos primeiros anos da injeção eletrônica) e veículos importados que não foram recalibrados para o combustível brasileiro podem, sim, sofrer consequências com o teor de 32% de etanol.
O etanol tem grande afinidade com a umidade e propriedades corrosivas que afetam sistemas de alimentação não preparados. O aumento contínuo da mistura acelera o ressecamento de mangueiras, retentores e vedações de borracha, além de facilitar a oxidação de componentes metálicos, como a bomba de combustível e os bicos injetores.
Nesses veículos, a central eletrônica também pode não conseguir corrigir a injeção o suficiente para compensar o menor poder calorífico do etanol, resultando em luz de anomalia no painel, marcha lenta irregular, perda de potência e dificuldade de partida a frio.
O que a nova gasolina muda na sua rotina
A resolução do governo que estabeleceu a E32 é temporária, com validade inicial de 180 dias. É importante lembrar que ela afeta apenas a gasolina C comum e aditivada; a gasolina premium (mais conhecida como Podium ou Octapro) permanece com 25% de etanol anidro, sendo a alternativa recomendada para os carros antigos ou importados sensíveis ao alto teor de álcool.
Para o motorista de carro flex que roda no dia a dia, o impacto da nova mudança de mistura será mínimo. A injeção eletrônica fará a leitura do tanque e ajustará a queima automaticamente. A principal recomendação é monitorar o próprio consumo: abastecer sempre no mesmo posto, zerar o odômetro e fazer o cálculo real de quantos quilômetros por litro seu veículo está fazendo com gasolina E32 e com etanol. Assim, a decisão na bomba deixa de ser um palpite e passa a ser matemática pura.