(Foto: Aprosoja MT | Divulgação)
Usinas de etanol de cana-de-açúcar estão erguendo plantas de milho ao lado de suas unidades para manter a produção durante a entressafra, entre dezembro e março. O movimento reflete o avanço do cereal, que já responde por mais de um quarto do etanol produzido no país e vem transformando a dinâmica de oferta do combustível nos postos.
A Aplus, empresa de engenharia de Blumenau (SC) especializada em biocombustíveis, tem dois contratos desse tipo em andamento, com a Atvos e a Aroeira, além de outros cinco projetos em negociação no Sudeste.
Segundo Alessandro Salvador, sócio-fundador e diretor comercial da empresa, a estratégia está na complementaridade entre as culturas. Como a cana precisa ser processada logo após a colheita, as usinas tradicionais interrompem as operações durante a entressafra.
Já o milho, por ser armazenável, permite produção ao longo de todo o ano e melhor aproveitamento da estrutura existente, incluindo laboratórios, áreas administrativas e armazenagem. Além disso, o bagaço da cana fornece vapor e energia para a planta de etanol de milho.
O fator econômico também impulsiona esse modelo. Salvador cita o caso de uma usina de etanol de cana construída do zero por cerca de R$ 1,4 bilhão, enquanto uma unidade de milho instalada ao lado exigiu investimento de aproximadamente R$ 900 milhões.
De 80 milhões a 10 bilhões de litros
Na safra 2014/15, o Brasil produziu 80 milhões de litros de etanol de milho, segundo a União Nacional do Etanol de Milho (Unem). Em 2020/21, o volume já havia alcançado 2,6 bilhões de litros. Na safra 2025/26, encerrada em março, a produção chegou a 10,17 bilhões de litros, crescimento de 29,8% sobre o ciclo anterior, de acordo com a Conab. Com isso, o etanol de milho passou a representar pouco mais de 27% dos 37,5 bilhões de litros produzidos no país, um recorde histórico.
A produção está concentrada no Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, onde a segunda safra de milho garante ampla oferta de matéria-prima. Para 2026/27, a Unem projeta cerca de 12 bilhões de litros, e a expectativa do setor é que a produção possa atingir aproximadamente 20 bilhões de litros até 2032.
O que muda para o motorista
Os impactos mais visíveis aparecem nas bombas de combustível. Historicamente, a entressafra da cana reduzia a oferta e aumentava a necessidade de estoques, o que provocava oscilações nos preços do etanol ao longo do ano.
Com as usinas de milho operando de forma contínua, a diferença entre os períodos de safra e entressafra diminui, garantindo maior regularidade na oferta. Como resultado, a tendência é de menor volatilidade dos preços e maior competitividade do etanol frente à gasolina por períodos mais longos.