A Operação Carbono Oculto, considerada um marco recente no combate ao crime organizado, completou um ano na semana passada com resultados que vão além do desmonte do que autoridades definiram como um amplo esquema criminoso. A operação, segundo empresas e órgãos públicos, produziu também melhora do ambiente de negócios no setor de combustíveis – que,
historicamente, tem sido usado para sonegação e lavagem de dinheiro.
Deflagrada em 28 de agosto de 2025, num trabalho que reuniu Ministério Público, polícias, ANP, Receita Federal e fiscos estaduais, entre outros, a Carbono Oculto atacou uma cadeia criminosa de fraudes e sonegação que envolvia postos, distribuidoras e usinas de etanol e importação de combustível.
Segundo o Ministério Público, o grupo investigado tinha ligações com integrantes da maior organização criminosa do país, o PCC, e ocultava e lavava recursos por meio de uma empresa do setor financeiro.
Para empresas do setor que atuavam dentro da lei, era uma batalha perdida porque as condições de concorrência eram desiguais.
“O espaço hoje ocupado pelas empresas legais, em todos os níveis da cadeia produtiva, aumentou muito. Nossa estimativa é que migrou do setor ilegal para o setor legal a comercialização de cerca de 10 bilhões de litros de combustíveis. Isso é muito coisa”, afirma Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), que tem como associadas Petrobras, Shell, Ipiranga, Petronas, Ale, entre outras. Para dimensionar a importância dos 10 bilhões de litros, de janeiro a julho deste ano o setor comercializou 93,2 bilhões de litros, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP).
A estimativa do ICL sobre o volume de litros que saiu do mercado ilegal não leva em conta os efeitos apenas da Carbono Oculto. Mas também de outras operações que vieram na sequência. Poucas semanas depois da Carbono Oculto, autoridades do Piauí deflagraram a Carbono Oculto 86 (referência ao DDD do Estado). Depois, na Bahia, veio a Operação Primus. Em fins de 2025, autoridades de São Paulo e do Rio de Janeiro também apertaram o cerco contra a Refit, que operava a antiga refinaria de Manguinhos.
“A Operação Carbono Oculto e os seus desdobramentos marcam um divisor de águas na repressão às fraudes no setor de combustíveis”, disse Augusto Salomon, presidente-executivo do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom).
“Pela primeira vez, o país compreendeu com clareza a dimensão de um problema que vai muito além da sonegação fiscal: a atuação de redes estruturadas que contemplam diversos elos da cadeia, operando adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro, com a infiltração do crime organizado”, disse ele.