Da dívida bruta da Raízen, de aproximadamente R$ 73 bilhões, 40% está nas mãos dos bondholders, 40% com os bancos e o restante pulverizado no mercado de capitais local,
Os credores da Raízen se uniram para pedir que os acionistas da companhia façam um aporte substancial na empresa de etanol de forma a estancar a crise financeira que assola a empresa, apurou o Valor. Em carta enviada à Cosan, de Rubens Ometto, e à Shell, o grupo solicita uma injeção de capital na Raízen de até R$ 25 bilhões, segundo fontes. O grupo reúne tanto os detentores de papéis de dívida externa, os chamados “bondholders”, assim como os credores bancários.
A solução trazida pelo grupo, conforme fontes, é que Cosan e Shell façam uma oferta de ações da Raízen, ancorando a operação com um cheque conjunto entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões. Para atrair os detentores de dívida externa uma possibilidade seria oferecer a esses credores a entrada nessa oferta mediante a conversão da dívida em ações, mas com o incentivo de considerar no cálculo 100% do valor de face desses papéis, sendo que eles negociam hoje no mercado secundário na média entre 45% e 50% do valor. O restante seria buscado no mercado. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) teria sinalizado que poderia ajudar na capitalização da Raízen, segundo interlocutores.
Uma fonte disse que, caso a oferta não seja suficiente para a capitalização necessária da companhia, os credores bancários poderiam ajudar em alternativas. Os bancos contrataram como assessor no caso o FTI. O grupo afirma que a solução trazida pela Cosan para a Raízen impõe um sacrifício muito maior aos credores, algo que gerou frustração. A leitura, ainda, é que os acionistas têm condições de injetarem um valor mais substancial na empresa para estancar com sua crise. Frisam que ambos receberam na última década cerca de R$ 20 bilhões em dividendos da Raízen.
O grupo reitera que as alternativas trazidas pelos acionistas não são suficientes para estancar a crise e se posicionam que as medidas na mesa trazem maior sacrifício por parte dos credores.
Uma primeira carta assinada por credores bancários locais — Santander, Itaú Unibanco e Bradesco — e o representante dos “bondholders”, o Moelis, foi enviada à Cosan e Shell na quinta-feira da semana passada. Já um segundo documento, que trouxe também como signatários os bancos credores estrangeiros, como JPMorgan, Bank of America, BNP, Sumitomo e Credit Agricole, além do Banco do Brasil, foi enviado no domingo à noite. Desde a semana passada, o alto escalão de Cosan e Shell estão reunidos em Londres para tratar da situação financeira da Raízen.
Da dívida bruta da Raízen, de aproximadamente R$ 73 bilhões, 40% está nas mãos dos bondholders, 40% com os bancos e o restante pulverizado no mercado de capitais local, entre debêntures e Certificados de Crédito Agrícola (CRAs).
Os credores também se colocaram contra a cisão da companhia, movimento que também está prevista na proposta da Cosan, que separaria em empresas diferentes o negócio de açúcar e etanol e o de logística. A visão desses credores é de que isso os deixaria expostos ao negócio mais fragilizado e que não faria sentido fazer a divisão em um momento em que a empresa enfrenta crise financeira. A leitura é de que a decisão de dividir a empresa é dos acionistas, mas que a mesma deve ocorrer apenas depois de equacionada a dívida da empresa como um todo.
Conforme mostrou o Valor na semana passada a Cosan apresentou como alternativa à Raízen a realização de uma oferta para aumento de capital na Raízen de cerca de R$ 3 bilhões, com a Shell injetando R$ 1,5 bilhão, a Cosan mais R$ 1 bilhão e Ometto R$ 500 milhões.
Depois desse aporte, seria proposta uma divisão da Raízen, com a divisão em uma empresa de açúcar e etanol e outra com os ativos de distribuição, ambas listadas. Depois disso seria sugerida uma conversão de dívida em ações. Em outra etapa, haveria uma oferta com fundos de private equity geridos pelo BTG aportando R$ 5,3 bilhões nas empresas. Haveria ainda um “follow-on” secundário, para a venda das ações dos credores que foram convertidas. Com isso os credores deixariam de ser acionistas.
Em paralelo, a Raízen vem desde o ano passado vendendo ativos para ajudar sua situação financeira, sendo que o próximo a sair seriam seus ativos na Argentina, que já estaria na reta final. Uma fonte disse que esse M&A sairia em melhores condições, trazendo também mais conforto para o comprador, se feito após a capitalização.
Procurada, a Cosan não comentou. A Shell informou que, como acionista da empresa, reconhece “os significativos desafios financeiros que a Raizen enfrenta atualmente e a seriedade da situação. Frisou que “continua trabalhando com as equipes de liderança da Raizen e da Cosan para apoiar a redução do endividamento da Raizen” e que a prioridade tem sido “garantir que a Raizen identifique e busque soluções definitivas para a joint venture, os acionistas e as demais partes interessadas da empresa”.
