Crise Raízen: preços dos combustíveis podem aumentar após pedido de recuperação extrajudicial?

13/03/2026

Fonte: Estadão

pedido de recuperação extrajudicial apresentado pela Raízen para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas levantou dúvidas sobre possíveis impactos no abastecimento de combustíveis no Brasil. A preocupação cresce num momento delicado, pois o consumidor também olha com atenção para o conflito que envolve Estados Unidos e Israel contra o Irã, que pressiona preços da gasolina e, principalmente, do diesel no país.

Apesar do tamanho da operação da empresa, uma das maiores distribuidoras do país, especialistas ouvidos pelo Jornal do Carro avaliam que, ao menos por ora, não há sinais de risco imediato de desabastecimento.

De acordo com Milad Kalume Neto, da K.Lume Consultoria, o pedido de recuperação extrajudicial tem natureza estritamente financeira e não altera, por enquanto, a operação da companhia. “Particularmente não vejo elementos para um desabastecimento decorrente de um pedido de recuperação extrajudicial. A Raízen esclareceu que este plano é exclusivamente financeiro e as operações permanecem normais”, afirma.

O plano protocolado pela empresa prevê um standstill de 90 dias, período em que credores suspendem temporariamente cobranças e pagamentos de juros e principal da dívida. A ideia é ganhar tempo para renegociar parte do passivo e evitar uma recuperação judicial.

Na prática, salienta Kalume, trata-se de uma pausa negociada entre a empresa e os credores para reestruturar compromissos financeiros sem interromper as atividades operacionais.

Mercado pulverizado diminui risco de desabastecimento

Outro fator que reduz a possibilidade de impacto imediato no abastecimento é a própria estrutura do mercado brasileiro de distribuição de combustíveis. De acordo com dados compilados por Kalume em estudo realizado com base em números de 2024, as cinco maiores distribuidoras (Iconic, Moove, Vibra, Raízen e Petronas) concentram mais de 70% do mercado nacional.

Nesse contexto, embora relevante, a participação da Raízen não representa um ponto de falha crítica na cadeia de distribuição. “A participação da companhia é representativa, com 11,35% do total, mas ela não está sozinha. Em uma eventualidade de problemas mais sérios, a distribuição poderia ocorrer facilmente por outras grandes empresas”, explica.

Ainda de acordo com o consultor, o setor trabalha historicamente com margens muito apertadas. Estas ficam, geralmente, entre 2% e 3%, compensadas por altos volumes de venda.

No caso dos preços dos combustíveis, Kalume afirma que o movimento da Raízen não deve ter impacto direto. “Não vejo que a recuperação extrajudicial implique no aumento dos preços. No Brasil, o preço final é definido pela Petrobras, que já se pronunciou que não irá adotar nenhuma medida drástica neste momento”, frisou. A empresa de capital misto, inclusive, ainda não promoveu quaisquer reajustes.

Jeep Commander; veja vídeo. Crédito: Estadão

Kalume ressalta que eventuais altas observadas recentemente nas bombas têm relação com fatores externos, como tensões geopolíticas, especialmente no Oriente Médio, que influenciam o preço internacional do petróleo. Brent ultrapassou o valor de US$ 100 dólares após novos ataques perto do Estreito de Ormuz.


O Brasil importa boa parte do diesel comercializado por aqui, então é normal uma pressão sobre o preço praticado. No caso da gasolina, contudo, apenas 10% vem do exterior — o que pode ser considerado irrisório sob o ponto de vista de repasses para as bombas e, por conseguinte, para o consumidor.

Mesmo assim, postos têm aumentado o preço dos combustíveis. Isso, conforme já mencionado, sem anuência da Petrobras, que não anunciou reajustes em suas refinarias.

Não à toa a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) acionou o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para investigar os aumentos repentinos nos combustíveis em quatro estados e no Distrito Federal. A medida foi motivada por declarações de sindicatos que justificaram a alta com base no conflito no Oriente Médio e no preço internacional do petróleo.

os alegam que ataques ao Irã pressionaram aumento dos combustíveis mesmo sem anuência da Petrobras Foto: IBRAHIM AMRO

O objetivo da investigação é apurar se há indícios de práticas anticompetitivas, como a combinação de preços ou a adoção de condutas comerciais uniformes entre concorrentes. Por meio desse monitoramento, a Senacon quer proteger o bolso do consumidor contra possíveis abusos ou tentativas de influenciar o setor de forma coordenada e injustificada.

Raízen: sinal amarelo, mas nada de crise

Para o especialista em combustíveis Vitor Sabag, o estágio atual da renegociação ainda não permite prever qualquer reflexo concreto no mercado. “Com essa recuperação extrajudicial, não consigo vislumbrar algum tipo de impacto sobre distribuição ou preço de produto”, afirma.

Segundo Sabag, um eventual avanço para uma recuperação judicial poderia trazer novos elementos, especialmente relacionados a crédito e financiamento das operações. “Naturalmente, numa recuperação judicial a questão de crédito pode diminuir, inclusive com fornecedores. Mas ainda é cedo para fazer qualquer afirmação”, comenta.

Mesmo nesse cenário hipotético, ele considera improvável uma falta de combustíveis. “Não acredito em desabastecimento, até pela fiscalização da ANP e de outros agentes do setor”, crava.

O ponto de atenção, segundo Kalume, está mesmo no que acontecerá após o período de 90 dias de negociação com credores. Se a reestruturação não atingir os objetivos, a empresa poderia enfrentar restrições de crédito no curto prazo — o que potencialmente reduziria sua flexibilidade operacional.

Isso poderia resultar, por exemplo, em menor formação de estoques, atrasos logísticos ou perda de participação de mercado. Ainda assim, o cenário atual está longe de indicar uma crise no abastecimento nacional. “Hoje não vejo como sendo um problema crítico, mas obviamente acende-se um sinal amarelo”, conclui Kalume.

Em um mercado competitivo e altamente regulado como o brasileiro, a situação da Raízen merece atenção. No entanto, por ora, seu status não parece capaz de provocar turbulência nas bombas e, tampouco, no bolso do consumidor.

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Os textos não refletem, necessariamente, a opinião institucional do Sindicato.

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