GPA (PCAR3) e Raízen (RAIZ4) atravessaram o último mês com forte pressão, com notícias de recuperação extrajudicial e reestruturação, que levou a um movimento marcado por quedas fortes nas ações e piora na percepção de risco, que culminaram na saída de ambas do Ibovespa – e dos demais índices da B3 – no período.
No GPA, os papéis foram duramente atingidos ao longo do mês, em meio à divulgação de resultados considerados fracos e ao aumento das preocupações com o nível de endividamento. No mês, os papéis do GPA caíram 29,84%, acumulando baixa de 44,19% no trimestre.
Em um dos momentos mais críticos, a ação chegou a cair 17,78% em um único pregão, o que reflete um ambiente desafiador tanto no cenário macro quanto nos fundamentos da companhia. No trimestre, a varejista seguiu pressionada por despesas financeiras elevadas e dificuldades para recompor margens em um setor já caracterizado por baixa rentabilidade.
A situação culminou no pedido de recuperação extrajudicial, com um plano que envolve cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas sem garantia. “Ficam expressamente excluídas obrigações correntes junto a fornecedores, parceiros e clientes, bem como obrigações trabalhistas, que não serão afetadas”, afirmou a empresa em nota à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O acordo, já firmado com credores que representam 46% do montante, prevê a suspensão das obrigações por 90 dias. “O plano tem efeitos imediatos, prevê a suspensão das obrigações da companhia junto aos credores afetados e cria um ambiente seguro e estável para a continuidade das negociações por 90 dias”, disse o GPA em nota.
Na avaliação de Fernando Siqueira, Head de Research da Eleven Financial, a desvalorização das ações durante o mês perpetua a deterioração já conhecida, agravada pelo avanço da reestruturação.
“É possível que o plano envolva a emissão de novas ações nos próximos meses, convertendo dívida em ações, o que diluiria os atuais acionistas, gerando pressão adicional”, afirmou.
Além da reestruturação, a Fitch Ratings rebaixou o nível das ações do GPA de “A” para “CCC”, o que reforçou o cenário de risco, citando dificuldades de refinanciamento, liquidez mais apertada e perspectiva de fluxo de caixa livre negativo.
Raízen
A Raízen seguiu trajetória semelhante no mês, ainda que com um histórico mais prolongado de perda de valor. Em março, as ações da Raízen caíram 21,54%, e nos últimos 3 meses, a queda foi de 36,25%.
O cenário é atribuído a uma combinação de decisões estratégicas tomadas em um período de maior otimismo, com aumento relevante da alavancagem e retorno abaixo do esperado em projetos relevantes. O consultor de estratégia e M&A da StoneX, José Luiz Mendes, afirma que o que aconteceu com a companhia é o resultado de decisões estratégicas e financeiras tomadas ao longo dos últimos anos.
Um dos principais pontos dentro da estratégia da companhia é a aposta no etanol de segunda geração, cuja monetização não ocorreu no ritmo projetado.
Segundo Mendes, um dos problemas foi a premissa financeira esperada pela Raízen. O mercado não pagou o prêmio na velocidade esperada, uma vez que havia uma desconexão entre a narrativa ESG e a real disponibilidade de um maior pagamento por parte dos clientes.
Com a estrutura de capital pressionada e aumento expressivo da dívida, a companhia avançou para um processo de recuperação extrajudicial, já aprovado pela Justiça, que prevê a suspensão de execuções por 180 dias e prazo adicional para negociação com credores. Em paralelo, a empresa estuda medidas para reforçar o capital, incluindo aportes, alongamento de passivos e venda de ativos.
Em fato relevante, a Raízen afirmou que a recuperação extrajudicial foi consensualmente estruturada entre a companhia e os principais credores financeiros para negociar e implementar a reestruturação de dívidas em um valor aproximado de R$ 65,1 bilhões.
“A companhia pretende assegurar um ambiente protegido e ordenado que permita a condução de discussões com seus credores financeiros e a busca de uma solução consensual, a ser eventualmente implementada por meio de uma recuperação extrajudicial, se necessária”, disse a empresa em fato relevante.
