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Padarias e rede com 168 lojas teriam ‘laranjas’, aponta megaoperação

29/08/2025

Fonte: Valor Econômico

O suposto esquema criminoso de fraude e lavagem de dinheiro, que teria movimentado cerca de R$ 140 bilhões, envolve não só postos de combustíveis, mas lojas de conveniência e grandes padarias, criadas com o nome de sócios “laranjas” em São Paulo. Parte são negócios que abriam e fechavam capital muito rapidamente, para camuflar a sucessão de operações criadas para a lavagem de dinheiro da organização, segundo documentos da investigação. 

Além disso, esses investigados trocavam o nome dos sócios das empresas frequentemente, o que seria uma forma dificultar a localização dos envolvidos em negócios usados para lavar dinheiro sujo. 

Esse “ecossistema” de crimes, como diz a Promotoria, passava necessariamente por postos de combustível e distribuidoras, além de usinas, mas seria preciso ocultar altas cifras em negócios com diferentes quadros societários. Aí entravam os “testas de ferro” e diferentes companhias. 

 Com base numa análise de cerca de 140 páginas de documentos do Ministério Público de São Paulo obtidos pelo Valor, no centro desses negócios paralelos estariam Tharek Bannout e Amine Mourad, irmã de Mohamad Mourad, o mentor do megaesquema descoberto pelas forças policiais. 

Amine é titular da Khadige Conveniência Ltda (também conhecida como Empório  Express Ltda), uma rede de conveniências com 168 filiais. Essa estrutura de pontos estaria dentro do esquema de crimes montado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), também investigado nas operações. 

Esquema passava necessariamente por postos e distribuidoras de combustíveis 

Citado nos autos, Ricardo Romano, associado ao PCC, constituiu a a rede de conveniências Strawberry, em endereços anteriormente usados pelo Empório Express, de Amine, e localizados dentro de postos. Outras investigadas, Ellen Bianca Resende e Maria Edenize Gomes, são identificadas como “laranjas” do Grupo Mohamad. 

Maria Edenize é a atual proprietária da Dubai, uma rede de padarias em São Paulo, e as duas seriam vizinhas no pequeno município de Santo Amaro de Brotas, em Sergipe, e teriam a mesma função nesse organograma de negócios estruturado. 

Ellen Bianca esteve envolvida na transferência de titularidade de empresas, recebendo firmas de outros “laranjas” e repassando negócios também, numa sinalização de esquema ativo com ocultação de quadros societários para dificultar a localização dos crimes. 

“Há indícios de vínculos dessas padarias com outras titularizadas por Ellen Resende e Maria Edenize, e que utilizam nomes semelhantes (Salamanca e Iracema). Isso sugere um padrão de constituição e sucessão de empresas para ocultação de propriedade”, dizem nos autos os promotores do Gaeco, grupo de combate ao crime organizado (núcleo São José do Rio Preto) 

Além delas, Tharek Bannout foi identificado em quadros societários de padarias, como a TMJ Consultoria e Gestão Empresarial Ltda., Nova Iracema Pães e Doces Ltda. e Nova Salamanca Pães e Doces Ltda. 

O atual quadro societário das empresas, no Serasa, segundo pesquisas do Valor, mostra Bannout como sócio atualmente. O Valor entrou em contato com as padarias, mas não teve retorno até o fim da noite de ontem. 

 Além desses negócios, ainda fariam parte da organização criminosa negócios que não caminhavam bem, em recuperação judicial há poucos meses, e outros em plena fase de expansão e conhecidas dos consumidores. Nesse grupo de negócios em crise financeira estariam a Copape, formuladora de gasolina, e a distribuidora Áster, ambas antigas conhecidas das autoridades fazendárias. Outro investigado, Roberto da Silva, ou “Beto Louco”, colíder do esquema, seria o responsável pela gestão das duas empresas. 

Copape e Áster pediram recuperação judicial em setembro de 2024, após a cassação de licenças pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) devido a fraudes fiscais. As companhias informavam dívidas de mais de R$ 800 milhões e buscavam reverter a decisão da ANP. 

Também investigadas por suposto esquema de sonegação fiscal no ano passado, as empresas tiveram vendas reduzidas em 80%, segundo o jornal “O Globo”. Pela apuração do MP, em 2020 Mourad comprou ambas desembolsando R$ 52 milhões. 

Outro negócio citado nas investigações é a rede de postos Boxter, que se expandiu na capital paulista nos últimos anos, em pontos estratégicos da cidade. 

Sobre a empresa, o investigado Renan Cepeda Gonçalves é identificado pelos promotores como uma pessoa chave na organização, por ser um membro da família Cepeda Gonçalves, e estar “intrinsecamente ligado à Rede Boxter, um grupo amplamente investigado por lavagem de capitais e conexões com o PCC”, afirmam os promotores nos documentos obtidos. 

O MP afirma que a Boxter é liderada por Natalício Gonçalves Filho e seus filhos (Renan, Gabriel e Natália Cepeda Gonçalves), que usariam “testas de ferro” na operação da empresa. Procurada ontem, a companhia não respondeu aos contatos da reportagem. 

Nos pedidos de busca e apreensão dos promotores de São Paulo, encaminhados ao juiz Sandro Barros Leite, é citada a existência de centenas de empresas constituídas sob a titularidade de terceiros, portanto, o organograma das operações pode ser mais amplo e complexo do que as apurações iniciais. 

“A constatação de múltiplas empresas atuantes em setor setores distintos, mas sediadas no mesmo endereço, e a ausência de sinais ostensivos de atividade empresarial, são fortes indicativos de que essas empresas foram instrumentalizadas para a prática de infrações penais e lavagem de capitais”, afirma a promotoria no processo. 

Os promotores do MP de São Paulo ainda afirmam que, entre os indivíduos em empresas diretamente envolvidos, estão as distribuidoras de combustíveis Arka, Rodopetro, Alpes, Império, Maxima, Everest, VMR, Orizona, Start, Port Brazil, Estrela, Petroworld e Stoc. “Muitas delas [têm] sedes em locais comuns e padrões operacionais suspeitos”, diz o MP nos autos. 

Além delas, a DexxosPar, alvo de busca e apreensão ontem, confirmou que estabelecimentos da controlada GPC Química foram objeto da equipe. Segundo a companhia, ela e a GPC Química conduzem seus os negócios em estrita observância das melhores práticas. E a GPC não compatibiliza com atos em desconformidade com a lei. 

A Cattalini Terminais Marítimos, alvo das apurações em curso, disse que colaborou com as autoridades, e não realiza importação nem comercialização de produtos, apenas serviços ao recebimento, armazenagem e expedição de granéis líquidos. 

Procuradas, as distribuidoras que também são algo da operação Arka, Duvale, Rodopetro, Império, Maxima. Everest, VMR. Orizona, Start, Port Brazil, Estrela e Petroworld não deram retorno. O Valor não conseguiu contato com Copape, com as distribuidoras Alpes e Stoc e com a Strawberry Lojas de Conveniência. (Colaborou Helena Benfica) 

 

O Minaspetro divulga notícias de outros veículos como mera prestação de serviço. Esses conteúdos não refletem necessariamente o posicionamento do Sindicato.
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