Por um lado, os conflitos de Venezuela e Irã prometem muita volatilidade. Por outro, o aumento dos níveis de estoque e oferta globais tem feito o preço do barril descer a ladeira – e pode descer ainda mais.
Conflitos geopolíticos envolvendo grandes produtores de petróleo, em geral, fazem os preços dos barris subirem – e ações de petroleiras, como a Petrobras (PETR3; PETR4), idem. No entanto, nestes tempos de Donald Trump indo para cima de Venezuela e Irã, outra força mais poderosa está agindo na direção contrária: o aumento do estoques internacionais.
Ou seja, dias difíceis podem estar por vir para os acionistas da estatal brasileira, que nos últimos anos não tiveram muito do que reclamar em matéria de dividendos.
Sob influência da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), o nível da oferta global está se equiparando ao do consumo. Esse descompasso, agravado lá na pandemia, chegou a fazer barris ultrapassarem os US$ 120 em idos de 2022 – o que permitiu forte distribuição de lucros pela Petrobras.
Apenas quatro anos depois, no entanto, devemos ter uma queda de mais de 50% nos preços do petróleo, se confirmadas as previsões da Administração de Informação de Energia (EIA) dos Estados Unidos. Já tendo cedido ao preço médio de US$ 69 por barril no ano passado, seriam atingidos os US$ 56 em 2026; e os US$ 54 no ano que vem.
Dito isso, será que a Petrobras manterá o posto de favorita entre investidores pessoa física, conquistado em 2025?
Inegavelmente, a estatal tem pela frente possível pressão na geração de caixa. Para Ruy Hungria, da Empiricus, se o barril chegar a patamar inferior a US$ 50, a torneira de dividendos deve se fechar. Mas tudo é relativo, não é mesmo? A estatal está bem posicionada no setor, ele explica, e outras empresas têm potencialmente mais a sofrer nesse ambiente. “Ainda depende da redução dessas tensões geopolíticas e outros fatores, que aumentem a perspectiva de sobreoferta, para confirmar essa queda de preços”, diz Hungria.
De todo modo, analistas já começam a refazer suas contas sobre o potencial das ações da Petrobras daqui para frente. A UBS BB, por exemplo, divulgou em seu último relatório sobre Petrobras um ajuste do preço-alvo de RS 42 para R$ 40 e manteve recomendação de compra – as ações da estatal giram no momento na casa dos R$ 32, logo, com uma alta potencial de 25%.
Na avaliação do banco, os níveis de produção são sólidos e o preço do barril não deve cair muito mais, o que se traduz em uma retorno com dividendos por ação (dividend yield) entre 10% e 11% em 2026. Esses números colocam a companhia entre as petroleiras com maior retorno ao acionista no mundo. No lado dos riscos, o relatório situa o preço do barril como principal preocupação no primeiro semestre, enquanto, no segundo, as eleições devem ganhar mais atenção.
Volatilidade segue no radar
As tensões geopolíticas que levaram o preço do petróleo a oscilar nas primeiras semanas do ano são um dos principais fatores que podem reverter a tendência de longo prazo de preços.
“Embora não tenha a quantidade de reservas da Venezuela, o Irã é a terceira maior potência do mundo e está num ponto estratégico, próximo dos principais mercados consumidores, como China e Índia”, afirma João Victor Marques, pesquisador da FGV Energia. “A produção iraniana é de cerca de 3 bilhões de barris por dia, mesmo sendo um país sancionado.”
A ameaça de um conflito militar contra os Estados Unidos envolve riscos elevados, e os preços seriam muito afetados. Para o pesquisador, os mais graves são os de destruição de infraestrutura petrolífera essencial ao mercado internacional; interrupção do escoamento dos demais países árabes, que dependem do Estreito de Hormuz; e a possibilidade de arrastar China e Índia para o conflito, por dependerem do petróleo iraniano.
Por isso, o preço respondeu mais à ameaça de um conflito militar entre o regime dos aiatolás e os Estados Unidos do que no episódio envolvendo Venezuela. Ao sabor do Oriente Média, atingiu US$ 66 por barril faz uma semana, indo ao maior nível desde novembro.
Mas, salvo nova escalada de tensão, a tendência é que os preços voltem a cair. “Os preços tem um impacto psicológico e antecipa um risco. Quando se percebe que o risco não foi consumado, ele despenca rapidamente em função das condições de oferta e demanda”, diz Marques.
Ainda sobre a Venezuela, o efeito predominante da intervenção americana periga ser baixista sobre os preços.
Pode até haver alguma redução momentânea de produção, enquanto não se define quem estará na dianteira da indústria venezuelana. De acordo com Trump, serão as empresas americanas. Confirmada essa possibilidade, pode ser recuperada a eficiência perdida dos últimos anos na Venezuela. Assim sendo, poderiam vir pressões adicionais de alta na oferta global e de queda nos preços.
Em entrevista ao Valor, Carlos Pascual, da S&P Global, diz que aumentar a produção de petróleo da Venezuela de 900 mil barris por dia para cerca de 1,5 milhão por dia pode ser feito com a infraestrutura existente em um prazo de cerca de 18 meses.
O desafio maior é elevar a produção para além desse volume, o que exigiria investimentos bilionários. “A situação é altamente incerta e dependerá do alinhamento de diversos fatores para que a produção de petróleo da Venezuela retorne aos níveis anteriores”, afirmou a S&P. “A única certeza é que a indústria de petróleo e gás estará de olho.”
A JP Morgan Global Research também projeta que a produção poderia atingir 1,3 a 1,4 milhão de barris por dia dentro de dois anos após uma transição política. Isso se intensificaria especialmente se as principais empresas petrolíferas retornassem ao país, o que poderia impulsionar ainda mais a produção.
“Com novos investimentos e grandes reformas institucionais, a produção poderia potencialmente expandir para 2,5 milhões de barris por dia na próxima década”, escreve Natasha Kaneva, chefe de Estratégia Global de Commodities da JP Morgan. “Assim, a situação em constante evolução na Venezuela pode representar imediatamente um dos maiores riscos de alta para as perspectivas de oferta global de petróleo para 2026-2027 e além.”
Nesse sentido, seriam dois problemas para a Petrobras. Além da pressão adicional de baixa nos preços do petróleo, concorrentes americanas, como a Chevron, podem despontar na preferência de investidores internacionais.
A ver as cenas dos próximos capítulos. Com Trump protagonista, emoções não devem faltar.
