Raízen: acionistas e credores têm propostas distintas para a crise

03/03/2026

Fonte: monitoring

Evitar a recuperação da Raízen, com mais de R$ 55 bilhões em dívidas, é o objetivo comum de acionistas e credores da maior produtora mundial de etanol de cana-de-açúcar, mas o caminho para isso tem encontrado obstáculos. Duas propostas de recapitalização da empresa estão na mesa, mas elas colocam em lados opostos a Cosan e a Shell, principais acionistas da companhia, com 44% de participação. Esse impasse vem atrasando uma definição, e a semana começa com conversas em São Paulo e Londres.

Pelo lado da Shell, a Raízen é sua maior aposta no segmento de energia limpa. Portanto, os ingleses acenam com uma injeção de US$ 3,5 bilhões em recursos novos na companhia. Também querem que a Raízen mantenha sob o mesmo guarda-chuva os negócios de produção de etanol e distribuição de combustível, pilares importantes para a marca. A Raízen tem cerca de 9 mil postos de combustíveis da marca Shell no Brasil, Paraguai e Argentina. As ações da empresa na B3 caíram 62% nos últimos 12 meses e, neste ano, acumulam perdas de 19,7%, até fevereiro.

Pelo lado da Cosan e do BTG Pactual, banco que se tornou o maior acionista individual da Cosan no ano passado, a ideia é diferente. A proposta é que a Raízen seja dividida em duas unidades distintas, uma de produção de etanol e outra de distribuição de combustíveis, e que ambas sejam listadas na Bolsa. A Cosan, que é controlada pelo empresário Rubens Ometto, por meio de um acordo de acionistas com o BTG, também injetaria capital novo, mas menos do que a Shell. No ano passado, a própria Cosan, com dívidas bilionárias, estruturou uma captação de pelo menos R$ 10 bilhões com participação do BTG e da gestora Perfin Infra.

A proposta é que Ometto coloque R$ 500 milhões, e o BTG, mais R$ 1 bilhão. Se a cisão acontecer, o BTG tem interesse em assumir o controle da distribuidora, segundo fontes a par das conversas.

MERCADO À ESPERA

Não bastassem as propostas divergentes dos principais acionistas, os credores têm pressionado Cosan e Shell para injetarem mais dinheiro na Raízen. Em carta enviada a ambas, eles pedem um aporte de capital de R$ 25 bilhões, valor que estimam permitir o equilíbrio financeiro da Raízen. Eles rejeitaram o aporte de R$ 5 bilhões oferecido pelos principais acionistas.

A situação é tão delicada que até o presidente Lula fez uma reunião com acionistas da Raízen e executivos das empresas para entender a situação e buscar uma solução.

Segundo Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, o mercado acompanha as negociações para salvar a companhia:

– A injeção de capital dos controladores deve ser o principal socorro. Mas fica complicado dizer se vai ter oferta de ações, e eu acho pouco provável nessa estratégia de divisão.

Na avaliação de acionistas do Bradesco BBJ, a divisão da empresa pode avançar se for confirmada. Mas há dúvidas sobre quais serão as proporções de conversão de dívida em capital e como será o plano de virada operacional para o negócio de açúcar e etanol da Raízen, em situação mais frágil. O JPMorgan avalia que a Raízen caminha para uma “reestruturação complexa”.

Uma recuperação judicial da Raízen, segundo especialistas, atrapalha os planos da Shell no segmento de energia limpa. A Raízen vem sendo pressionada por juros elevados, safras abaixo do esperado e investimentos agressivos, o que levou a rebaixamentos de seu crédito e quedas nos seus títulos. A empresa teve prejuízo líquido de R$ 15,6 bilhões no terceiro trimestre de 2025 e, em meados de fevereiro, alertou para uma “incerteza relevante” sobre sua capacidade de continuar operando.

Shell informou que, como acionista, reconhece os desafios financeiros da Raízen e a seriedade da situação. E disse que “continua trabalhando com as equipes de liderança da Raízen e da Cosan para apoiar a redução do endividamento” da empresa. Procurados, Cosan, BTG e Raízen não comentaram.

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