A autarquia solicitou esclarecimentos após a imprensa indicar que investidores estariam se desfazendo de títulos da companhia em meio a preocupações crescentes sobre o equacionamento de um passivo bilionário
A Raízen emitiu um comunicado a mercado nesta sexta-feira, 6, para responder formalmente a um questionamento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) motivado por recentes notícias sobre sua saúde financeira.
A autarquia solicitou esclarecimentos após reportagens da imprensa indicarem que investidores estariam se desfazendo de títulos da companhia em meio a preocupações crescentes sobre o equacionamento de um passivo bilionário.
No comunicado, a Raízen confirmou que seus acionistas controladores – Cosan e Shell – seguem avaliando, de forma prioritária, alternativas estratégicas para reduzir a alavancagem e otimizar a estrutura de capital da organização.
Circulam informações no mercado de que a Raízen contratou os escritórios Pinheiro Neto e Cleary Gottlieb, referências em reestruturação, para auxiliar no processo.
O posicionamento da companhia ocorre em um momento de forte pressão sobre seus títulos de dívida no mercado internacional.
Segundo as informações que motivaram o ofício da CVM, investidores demonstraram receio de que os sócios controladores não cobrissem um déficit projetado em quase US$ 4 bilhões (cerca de R$ 21,2 bilhões, na cotação atual). Esse cenário teria levado os rendimentos dos títulos com vencimento em 2032 a patamares superiores a 14%, refletindo a percepção de risco elevado.
A Raízen esclareceu que tais avaliações internas podem abranger diferentes transações e estruturas, mas ressaltou que, até esta data, não há nenhuma decisão tomada ou compromisso vinculante celebrado.
A crise de confiança foi intensificada por fatores operacionais e macroeconômicos que têm pressionado o fluxo de caixa da gigante do setor de energia. A empresa vem enfrentando dificuldades com as altas taxas de juros e safras de cana-de-açúcar abaixo das expectativas.
Além disso, pesados investimentos em tecnologias de transição, como o etanol de segunda geração e o combustível sustentável de aviação, ainda não geraram os retornos financeiros esperados.
O mercado interpretou negativamente o recente resgate de títulos pela Cosan, temendo uma menor disposição do conglomerado em capitalizar a produtora de biocombustíveis. A empresa precisaria de um aporte de capital de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões segundo estimativas do UBS BB.
Entre as opções que estariam sendo debatidas nos bastidores figuram a cisão de unidades de negócio, como a rede de distribuição de combustíveis, e até mesmo uma oferta de ações. No entanto, o diretor de relações com investidores, Lorival Nogueira Luz Jr., reafirmou no documento enviado ao regulador o compromisso da Raízen com a transparência e a busca por soluções que fortaleçam a posição de liquidez do grupo.
A companhia pontuou que qualquer movimento concreto será divulgado tempestivamente, buscando acalmar o mercado após uma semana de volatilidade acentuada em fevereiro. A Shell, por sua vez, teria se abstido de injetar capital adicional por conta própria para evitar a consolidação da dívida em seu balanço global, enquanto a Cosan tenta se reorganizar após prejuízos com ações da Vale.
