Em 2025 o resultado da balança comercial brasileira ficou mais dependente das trocas em petróleo de derivados. O superávit desses produtos alcançou US$ 29,6 bilhões em 2025, recorde da série histórica. O pico anterior foi em 2024, com US$ 28,2 bilhões. O saldo em petróleo e derivados em 2025 foi equivalente a 43,3% dos US$ 68,3 bilhões de superávit total da balança comercial do ano, ultrapassando os 38% de 2024.
Os dados são do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), levantado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), com base nos dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic). O aumento do superávit em petróleo e derivados tem sido puxado pela exportação do óleo bruto, aponta Lia Valls, professora na UERJ e pesquisadora associada do FGV Ibre.
“Mesmo com preços não tão favoráveis, o volume de exportação do petróleo bruto é que impulsionou o superávit de petróleo e derivados”, diz Valls. Os termos de troca, que é a relação entre preços de exportação e importação, diz, estão relativamente estáveis nos últimos quatro anos.
Segundo dados da Secex, os preços médios de exportação de petróleo caíram 9,8% em 2025 contra o ano anterior. O volume de embarque da commodity foi em sentido inverso aos preços. O Icomex mostra alta 10,7% no volume embarcado de petróleo em 2025 ante 2024. O aumento de quantidade vem no decorrer da última década. A alta do ano passado foi de praticamente 150% (148%) em relação a 2016, quando a balança de petróleo e derivados passou a ser superavitária, com a produção do óleo bruto impulsionada pelo pré-sal.
Em 2025, a produção média anual de petróleo foi recorde, de 3,77 milhões de barris/dia, segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP). A produção de gás natural atingiu média anual de 179 milhões de metros cúbicos/dia, também recorde histórico. Juntos, petróleo e gás cresceram 12,7% ante o pico de produção de 2023. Contra 2024 a alta foi de 13,3%.
Enquanto a produção maior tem sustentado aumentos da quantidade exportada de petróleo, diz Valls, a balança de derivados permanece deficitária. Em 2025, segundo o Icomex, o déficit comercial em derivados foi de US$ 8,5 bilhões, resultado semelhante aos de 2023 e 2024.
Estamos dependendo basicamente de commodities agrícolas e petróleo”
“O Brasil tornou-se exportador líquido de petróleo, com volumes consideráveis e crescentes. É bom para o país. O problema é que não beneficiamos o produto. Não aumentamos a capacidade de refino e não temos como elevar produção de derivados”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).
Para Welber Barral, sócio da BMJ e ex-secretário de Comércio Exterior, a falta de capacidade de refino se destaca ainda mais num país em que o modal de transporte rodoviário é importante. Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), o modal rodoviário é responsável por 65% da movimentação de cargas e 95% do transporte de passageiros no país.
Os dados da ANP mostram que o volume de importação de derivados de petróleo também subiu em 2025. A quantidade de compra externa de gasolina A, que é o combustível puro, sem etanol, cresceu 27,6% ante 2024. A importação do diesel A, também puro, sem adição de biodiesel, cresceu 19,4%. Dados da Secex também mostram aumento na importação de derivados de petróleo, com alta de 11% em volume, em 2025, ante 2024. Os preços foram caíram 8,2%, o que ajudou a segurar o déficit da balança de derivados.
Há expectativa de que os volumes de produção de petróleo bruto cresçam até pelo menos o início da próxima década, mas eventual exploração da Margem Equatorial pode estender isso. O argumento do governo para a extração na nova região, diz Valls, é ter recursos para o financiamento da transição energética, mas a questão da destinação de recursos é um tema ainda a ser debatido.
Qualquer que seja o cenário ainda a ser definido na Margem Equatorial, os dados atuais da balança mostram que é preciso diversificar mais a pauta de exportação, diz Valls. “Não podemos ficar só no petróleo.”
Castro, da AEB, diz que o petróleo contribuiu para tornar a exportação brasileira ainda mais básica, com menor valor agregado. “Tiramos do poço, entra no navio e vai embora.” Ele faz um paralelo com a soja, grão cuja produção também tem se expandido, com recorde de safra em 2025, gerando também embarques crescentes. “Temos exportado mais soja em grão e menos o produto beneficiado, na forma de farelo ou óleo.”
Considerando uma cesta da exportação brasileira de soja e derivados – farelo, óleo, grão para semeadura, farinha e molho -, a fatia do grão, mesmo triturado, subiu de 76% para 82,3% de 2016 para 2025. A de farelo caiu de 20,4% para 15% e a de óleo de soja bruto, de 3,2% para 2,5%.
