(Luiz Fernando Menezes/Fotoarena)
Uma eventual decisão do governo dos Estados Unidos de restringir o envio de diesel ao exterior pode trazer consequências para o mercado brasileiro. O país sul-americano compra no exterior aproximadamente 30% do combustível que consome e tem os americanos entre seus principais fornecedores. A possibilidade voltou ao centro do debate após o presidente Donald Trump afirmar, no domingo, 27, que a medida continua sendo considerada pela Casa Branca.
Em entrevista à Fox News, Trump indicou que a administração americana ainda não descartou a suspensão das exportações. “Isso muitas vezes pode levar a um pequeno aumento no preço da gasolina para os carros, então estamos analisando isso muito seriamente, podemos fazer isso (suspender as exportações)”, disse. A proposta seria uma das alternativas para aumentar a disponibilidade de combustíveis nos Estados Unidos e aliviar os preços da energia antes das eleições legislativas de novembro.
A iniciativa, porém, encontra divergências dentro do próprio governo. O secretário de Energia americano, Chris Wright, declarou nesta semana que não existe intenção de promover um bloqueio generalizado às exportações. Em vez disso, a estratégia em discussão envolve buscar a colaboração das empresas do setor para que parte dos carregamentos de diesel tenha seu destino redirecionado ao mercado interno. A resistência também aparece entre os republicanos e na indústria de combustíveis. No sábado, 26, o senador Ted Cruz afirmou a representantes de refinarias que recebeu garantias da Casa Branca de que a comercialização externa do diesel não será proibida, de acordo com fontes ouvidas pela Bloomberg.
Para as empresas do setor, restringir as exportações poderia aumentar a quantidade de combustível disponível nos Estados Unidos em um primeiro momento. Entretanto, a estratégia também apresenta riscos: sem a possibilidade de comercializar parte da produção no exterior, as refinarias poderiam reduzir suas operações, comprometendo a oferta posteriormente.
O Brasil está entre os países que poderiam sentir os efeitos de uma mudança na política comercial americana. Apesar de exportar mais petróleo do que importa, o país não dispõe de estrutura de refino suficiente para atender integralmente à demanda interna por derivados. Por isso, recorre ao mercado internacional, sobretudo para adquirir diesel. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), a Rússia ocupa a primeira posição entre os países de origem do diesel importado pelo Brasil. Os Estados Unidos aparecem na sequência.
A possibilidade de uma restrição americana é particularmente preocupante diante da proximidade do plantio da soja, período em que a demanda por combustível para atividades agrícolas e logísticas ganha relevância. O Bradesco BBI considera que uma eventual proibição representaria um fator negativo para o Brasil, em razão da dependência das compras externas e da participação americana no fornecimento. Na avaliação do banco, uma eventual escassez poderia obrigar o país a direcionar uma parcela maior do diesel disponível para o transporte e a logística relacionados ao agronegócio, inclusive no escoamento das safras destinadas ao exterior. Como consequência, outros setores da economia poderiam enfrentar uma oferta menor do combustível.
A discussão ganhou importância política nos Estados Unidos à medida que se aproxima a disputa parlamentar de novembro. Representantes de estados com expressiva atividade agrícola têm defendido a adoção de restrições às exportações durante o período de colheita de outono, quando a disponibilidade de diesel é especialmente relevante para o setor. O cenário internacional também contribui para a preocupação com o abastecimento. O comércio global de combustíveis enfrenta dificuldades decorrentes das interrupções na circulação pelo Estreito de Ormuz e dos ataques promovidos pela Ucrânia contra refinarias russas.
Utilizado em diferentes etapas da cadeia produtiva, o diesel abastece desde tratores e outras máquinas agrícolas até caminhões, trens de carga e veículos de entrega. Uma alteração significativa na disponibilidade do combustível poderia repercutir para além do setor energético.