Foto: 2.out.26 – Reuters
É difícil deixar para trás o petróleo a US$ 100 (R$ 522 na cotação atual).
O volume de petróleo bruto que sai do Oriente Médio quase retornou aos níveis registrados antes de os EUA atacarem o Irã, desencadeando uma das maiores interrupções de oferta da história. Ainda assim, os preços globais permanecem acima de US$ 100, cerca de 40% superiores aos níveis do início do conflito. Eles provocam ondas de choque na economia mundial, alimentando a inflação e pressionando tanto os setores produtivos quanto os consumidores.
Nem mesmo o anúncio feito na sexta-feira (2) de que o G7 e seus parceiros liberariam até 100 milhões de barris de estoques emergenciais de petróleo e diesel conseguiu reduzir os preços. Em vez disso, uma combinação de problemas os mantém elevados.
Os operadores temem que a guerra ainda não resolvida possa voltar a se intensificar a qualquer momento, sobretudo agora que os EUA estão enviando um porta-aviões adicional e mais tropas ao Golfo Pérsico. Até mesmo o impasse atual envolve riscos, com o Irã atacando alguns navios enquanto tenta controlar o estreito de Hormuz.
Ao mesmo tempo, os estoques de petróleo em todo o mundo foram fortemente reduzidos e agora estão no nível mais baixo em cinco anos. A guerra da Rússia contra a Ucrânia, que continua em curso, bloqueou as exportações de muitas refinarias que transformam petróleo bruto em combustíveis acabados. Por isso, refinarias de outras regiões estão dispostas a pagar preços elevados para garantir o petróleo necessário e operar sem interrupções.
E a enorme dificuldade de retirar petróleo de uma zona de guerra por diferentes rotas marítimas acrescenta custos próprios.
“Perdemos oferta, reduzimos os estoques e prejudicamos a capacidade de transformar petróleo bruto em produtos como diesel. Fazer o petróleo voltar a circular não resolve nada disso de imediato”, afirmou Haris Khurshid, diretor de investimentos da Karobaar Capital LP, de Chicago.
Veja cinco razões pelas quais os preços do petróleo bruto continuam acima de US$ 100.
Fator medo
O mercado continua preocupado com uma possível escalada dos combates. EUA e Irã estão muito distantes em suas exigências para encerrar a guerra e, embora não tenham retomado as hostilidades generalizadas vistas no primeiro semestre, por vezes trocaram ataques. No mês passado, um ataque de drones contra o oleoduto Leste-Oeste, na Arábia Saudita, paralisou essa infraestrutura essencial para o transporte de petróleo, evidenciando os riscos persistentes.
Tanto o Irã quanto os EUA tentam controlar o tráfego pelo estratégico estreito de Hormuz, por onde passavam 20% do petróleo mundial antes da guerra. Além disso, os houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, declararam um bloqueio à navegação saudita no mar Vermelho pelo estreito de Bab el-Mandeb, ameaçando outra rota petrolífera.
Custos de transporte
Embora alguns navios estejam atravessando esses pontos de estrangulamento, a interrupção do tráfego normal elevou o custo de levar os barris ao mercado.
O escoamento de petróleo bruto para fora de Ormuz ainda depende fortemente de embarcações que fazem trajetos de um lado a outro do estreito, transferências de navio para navio e rotas alternativas. Fretes recordes de petroleiros —mais de US$ 1,2 milhão (R$ 6,2 milhões) por dia para transportar petróleo do golfo Pérsico à China— só aumentam os custos enfrentados pelos consumidores.
“A questão central é que uma recuperação do volume de oferta não equivale à normalização completa do sistema de abastecimento”, afirmou Xuyi Zhao, analista sênior de petróleo da Guotai Junan Futures. “O mercado precifica não apenas quanto petróleo bruto está sendo embarcado, mas também se esses barris podem ser entregues de forma segura, confiável e a baixo custo.”
Impacto nos estoques
Embora os embarques de petróleo do Oriente Médio estejam aumentando, os estoques globais continuam fortemente reduzidos pela guerra. Atualmente, os estoques mundiais somam cerca de 4,3 bilhões de barris, uma queda de mais de 400 milhões de barris desde março, o primeiro mês completo da guerra, segundo dados da consultoria Energy Aspects.
Enquanto isso, a demanda mundial por petróleo se recuperou, após sofrer um impacto inicial dos preços elevados. A demanda total está agora em cerca de 104,8 milhões de barris por dia, 6,5 milhões de barris diários acima do menor nível registrado durante a guerra, em maio, mostram números da Energy Aspects.
Crise dos combustíveis
A retomada dos fluxos de petróleo bruto não resolve a escassez mundial de combustíveis acabados, como o diesel. As exportações de dois dos principais polos de refino do mundo —o Oriente Médio e a Rússia— continuam limitadas.
Como resultado, refinarias fora dessas duas regiões operam a todo vapor para suprir a lacuna, correndo o risco de paralisações não programadas caso seus equipamentos sobrecarregados apresentem falhas. Elas pagam o que for necessário para garantir um fornecimento constante de petróleo bruto.
Proteção contra a inflação
Presidentes de bancos centrais de todo o mundo têm alertado que a alta dos preços dos combustíveis aumenta as pressões inflacionárias e pode, em última instância, levar a juros mais altos. Operadores afirmam que, com a elevação dos rendimentos dos títulos, o mercado de petróleo voltou a ganhar espaço como proteção contra a inflação, sobretudo nas últimas semanas. Isso não representa demanda física por petróleo, mas pode elevar os preços da mesma forma.