Defensor do etanol, Filosa assume a Stellantis

29/05/2025

Fonte: Valor Econômico

Não é todo dia que uma multinacional nomeia, para ser seu principal executivo, um torcedor do Atlético Mineiro que, além do nhoque, prato típico da sua terra natal, também gosta de comer pão de queijo. Não são esses, no entanto, os únicos laços do novo presidente mundial da Stellantis, Antonio Filosa, com o Brasil. Além da esposa, mineira, e dos dois filhos nascidos no país, o executivo é um árduo defensor do etanol como combustível. Anunciada na quarta-feira (28), a nomeação do italiano que passou boa parte da carreira no Brasil representa uma guinada na gestão global da Stellantis.

A Stellantis, palavra com origem no verbo latino “stello”, que significa “iluminar estrelas”, nasceu, em 2021, da junção entre o grupo Fiat Chrysler com Peugeot Citroën, reunindo 14 marcas. Desde então, o comando operacional da nova companhia ficou com um executivo do lado francês do casamento: o português Carlos Tavares, que veio da Peugeot Citroën, e, até a sua repentina saída da empresa, no fim de 2024, era umas das referências globais do setor automotivo.

O lado italiano ficou com a presidência do conselho, representado por John Elkann, herdeiro da família Agnelli, fundadora da Fiat. Desde a saída de Tavares, o bilionário que nasceu três anos depois de Filosa, em 1976, assumiu temporariamente a presidência do grupo e montou um comitê para fazer uma escolha criteriosa do sucessor de Tavares. Agora, tanto o conselho como o comando das operações estão nas mãos de executivos com origens na Fiat.

Elkann esteve no Brasil em março. Visitou a fábrica de Betim (MG) e deu entrevista ao lado de Filosa. Quando perguntaram a Elkann se o futuro CEO da Stellantis poderia estar naquela sala, ele respondeu: “Tem muita gente boa nessa sala”. Elkann, que também viveu no Brasil na infância, disse que queria ter tempo para “escolher o melhor candidato”.

A missão do candidato escolhido não será fácil. É grande a expectativa da empresa em relação aos resultados. Em 2024, a Stellantis teve lucro operacional de € 8,65 bilhões, bem abaixo dos € 24,34 bilhões do ano anterior. A receita anual, € 156,88 bilhões, foi 17% menor do que em 2023. Parte do resultado negativo, que se refletiu também nas vendas, refere-se ao impacto da concorrência chinesa em vários mercados. A insatisfação de acionistas com os resultados provocou a pressão para que Tavares deixasse o cargo.

Na Fiat desde 1999, Filosa construiu estreita relação com o Brasil e a América do Sul. Sua primeira passagem pelo Brasil foi em 2005, quando consolidou a Fiat como uma das marcas de destaque no mercado interno. Ele também liderou a área de compras da empresa italiana na América Latina e o comando da operação argentina.

Em 2018, depois que a Fiat se juntou à Chrysler, assumiu a presidência da operação da nova empresa (FCA) na América do Sul. Três anos depois, com o nascimento da Stellantis, assumiu, novamente, a presidência do novo grupo na região, que representa em torno de 15% das vendas globais. Em 2024, o grupo anunciou investimento de R$ 32 bilhões na região nesta década. No mesmo ano, Filosa deixou o cargo para assumir o comando da marca Jeep nos Estados Unidos.

Na gestão do grupo no Brasil, o executivo sempre levantou a bandeira do etanol. E, mais recentemente, tornou-se árduo defensor do desenvolvimento de carros híbridos movidos com o biocombustível como solução melhor do que os modelos elétricos.

Graduado em engenharia pela Escola Politécnica de Milão e MBA pela Fundação Dom Cabral, no Brasil, Filosa tinha estreito vínculo com Sergio Marchionne, lendário chefe da Fiat-Chrysler, que morreu em julho de 2018.

Durante a pandemia, quando surgiu a escassez de componentes, Filosa valeu-se da experiência em áreas de manufatura e de compras em vários países para enfrentar o problema. Ele também comandou, ainda, um incansável trabalho para atrair fornecedores para o entorno da fábrica da Jeep em Goiana (PE).

Defendeu, assim, tratamento tributário diferenciado para fábricas de regiões mais distantes dos principais centros de consumo de carros e de fornecimento de peças. Por isso, foi um dos que mais batalharam pela extensão dos benefícios fiscais para o Nordeste, até 2032, aprovada pelo Congresso no início de 2024.

O Brasil sempre o entusiasmou. Filosa disse, um dia, que o país o atraía pela capacidade das pessoas de fazer as coisas “misturando criatividade com paixão”. Nas entrevistas, falava com destreza sobre o cenário macroeconômico do Brasil e sempre esteve no grupo que encabeçava negociações com o governo em torno dos temas que interessavam ao setor.

Nos próximos dias, a Stellantis convocará uma assembleia de acionistas para eleger Filosa como membro do conselho. Enquanto isso, para lhe conceder autoridade plena, o conselho atribuiu a ele os poderes de CEO com vigência a partir de 23 de junho.

Ao receber o prêmio “Executivo de Valor”, logo que a Stellantis foi criada, Filosa lembrou, em entrevista, que seus filhos coincidentemente nasceram em épocas marcantes na sua carreira. Filippo veio ao mundo quando o pai assumiu o comando da Fiat Chrysler na América do Sul. Já Gabriel nasceu praticamente junto com a Stellantis.

Na conversa, ele mencionou que seus pais, Filippo Filosa e Rosalina Vecchione, foram figuras inspiradoras na vida. Também citou “Carmina Burana” como trilha sonora favorita e “A Divina Comédia” como livro de cabeceira. E, antes que a menção sobre a preferência futebolística gere constrangimentos, é bom deixar claro que, além do Atlético Mineiro, torce, claro, pelo Napoli, atual campeão italiano.

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